Menino homem e bicho de mau agouro

18 de fevereiro de 2011 at 0:32 2 comentários

Quando engravidei e fiquei sabendo pelos exames que se tratava de um menino homem, como se diz lá na roça, e contrariando todas as superstições e simpatias que comigo faziam as tias, aparecendo sempre uma colher para dizer que seria mulher, quis escolher um tema para a decoração de seu quartinho que não fosse muito fofo. Não me sentia nada atraída por ursinhos, coelhinhos e outros animais doces e que não me parecem muito próprios à fauna brasileira e particularmente à fauna do cerrado. Mas também não cogitei escolher uma anta, um sariema ou um lobo guará. Alto lá! Eu sou maluca, mas não sou doida.

Acabei por escolher uma coruja, um animal que sempre gostei de fotografar e que me parece  associado à sabedoria. Quando me formei em Letras, era o símbolo do curso e eu sabia vagamente que a coruja era ligada mesmo à sabedoria, a deuses e seres mágicos protetores da filosofia e da literatura em algumas culturas. Sempre me fascinaram os grandes olhos vigilantes e perscrutadores.

Não consultei ninguém ao decidir, mas ouvi vez ou ou outra algum comentário perplexo sobre minha escolha.  Mas corujas comem ratos e até cobras. E ursinhos fofos comem o quê? São vegetarianos por acaso? Podem comer até gente, meu bem! Corujas seriam bichos de mau agouro. Uma coruja piando sobre uma casa é morte na família.  (Parênteses: várias gerações de corujas viveram e se reproduziram sobre o forro da casa de fazenda onde vivem meus pais, ambos com quase 80 anos, até que eles, não suportando mais a fuzarca e o mau cheiro, fecharam a entrada para as aves notívagas). Pois até bizarrices do tipo escutei: corujas são os olhos do diabo na terra. Que é isso? Me erra. O fato é que uma coruja de pelúcia foi a primeira coisa que comprei para me preparar para a chegada de Fernando. Pois encomendei com o desenho o kit de berço, as lembracinhas e o quadro para a porta da maternidade.

E olhe que não foi muito fácil encontrar todas essas coisas. Eu não achava muitos produtos disponíveis nem em lojas físicas nem na internet. Mandei fazer algumas  e até comprei pelo Etsy (http://www.etsy.com/) corujinhas feitas na Holanda e adesivos produzidos em Cingapura. Hoje, estranhamente, há uma profusão de corujas no mercado: roupas com estampas, acessórios e até brinquedos. Será que lancei tendência ou ela junto com Fernando estava nascendo?

Seduzida por seu pio, acabei ampliando o tema e incluí no quartinho outros bichos da noite, como sapos, gatos pretos e até um morcego (ou vampirinho?). O papel de parede do pequeno quarto foi de estrelas e acrescentei no móbile (sim, comprei um lindo da Fisher Price que tinha ursinhos), algumas corujas de feltro. Creio que o resultado ficou bom, lindo para uma mãe baba-ovo.

Depois do nascimento de Fernando, ele ganhou outros tantos bichos, que ajudaram a povoar seu quarto hoje repleto. Sorte é que ele não tem nenhuma alergia respiratória ou eu teria que me desfazer de todos, como já vi acontecer com muitas mães de bebês alérgicos por aí.

Brinquedo de machinho – Mas o que me causou desapontamento e eis mais uma razão deste post, além de falar de corujices, é que – perguntem-me se Fernando alguma vez se interessou por alguma dessas corujas e bichos escolhidos tão ternamente pela mãe e pelas visitas? Nunca, eu lhes digo. Ele sempre tratou os bichos de pelúcia com absoluto desprezo. Desde que viu seu primeiro carrinho, ficou obsessivo, “invocado”, como também se diz lá na roça. Anda com um carrinho pra todo lado, dorme, come, toma banho com eles.  Uma decepção para a mãe coruja e uma lição: não adianta, absolutamente, a gente tentar fazer escolhas para nossos filhos. Eles farão suas próprias escolhas, a começar pelo brinquedo preferido.

É claro que me debato, que lamento ao contemplar todos os bichos, com seus olhões carentes e esbugalhados pelas prateleiras e paredes, tanto mais que, ao contrário de muitos pais e mães que adoram carros, motos e  outras máquinas, e decoram os quartos de seus meninos homens com eles, nunca lhes devotei nenhum interesse e fascínio. Para mim, a finalidade de um carro é puramente prática: nos transportar e nada mais. Aliás, nem gostaria de cultivar no meu filho essa simpatia por máquinas e velocidade. Mas nada podemos contra essa inclinação natural. Fazer o que, se sou mãe de um típico machinho? Já que eu não quis escolher um tema fofo, com bichinhos fofos para meu filho dormir abraçadinho, o jeito agora é aguentar.

Aliás,  eu e seu pai ficamos surpresos no dia em que atravessávamos a rua e ouvimos ele falar a palavra “carro”. E foi dada a largada para a tagarelice. A propósito, com essa expressão eu compus uma frase que foi uma das vencedoras no concurso promovido pela Fisher Price (http://tinyurl.com/6hgpyqt). A gente deveria relatar a história das primeiras palavras ditas por nossos filhos. Frase objetiva e modesta, claro, limitada a uns tantos caracteres.

Eu bem que gostaria de ter feito um longo prólogo, relatando  as primeiras incursões de Fernando no fascinante mundo da linguagem verbal, mas o concurso não se prestava a isso. Para essas divagações se prestam o umbigo da mãe e este blog que é, claro, a expansão de seu próprio umbigo, hoje um pouco menos inchado e saltado pra fora. O prêmio para as frases vencedoras: lindos brinquedos da Fisher Price, que produz alguns dos melhores e mais divertidos. E adivinhem o que vou escolher para Fernando? Decerto não será uma coruja.


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Sob pressão e sobre panelas de pressão

2 Comentários Add your own

  • 1. Marco Vigário  |  15 de março de 2011 às 17:38

    Cássia, talvez o Fernando goste de carros de um jeito bom, sem usá-los para cometer imprudências no trânsito, por exemplo. Eu mesmo sou apaixonado por um carro antigo, o Karmann Ghia. Se tivesse um (é caríssimo), cuidaria dele com todo o esmero.
    Mas entendo a sua frustração. Gostaria que meu filho, o João, gostasse de futebol. Frequentemente me imagino jogando e conversando com ele sobre isso. Se ele gostar, vai ser maravilhoso. Se não, se ele preferir música baiana, por exemplo, ou se pronunciar “reboleichon” como primeira palavra, não sei o que vou fazer. Aliás, sei, acho que vou ter que gostar também, né, e ir com ele no show do “Chiclete com Banana For Kids”. Ai, ai, ai, será que consigo?

    Responder
  • 2. Fabio  |  18 de julho de 2011 às 1:17

    Mae sofre demais! o muleke so quer um carrinho…

    Responder

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